FADO

Inspirado por uma reinterpretação do conceito de tasca moderna, o Povo é também um espaço de programação e de produção de conteúdos culturais. Assim, as Residências Artísticas do Povo nascem com o objectivo de descobrir novas vozes do fado e com elas desenvolver um trabalho que possa ser enriquecedor e potenciador de uma carreira profissional.

Prevendo quatro edições anuais, cada residência tem uma duração de doze semanas. Durante este período, o Povo convida um jovem intérprete a apresentar o seu trabalho e a desenvolver um repertório artístico original. Durante o período de residência, os jovens fadistas fazem um trabalho exploratório, que promove a revelação de novos letristas, e que cruza e dialoga com outros instrumentos e influências musicais. Este trabalho fica, posteriormente, registado na gravação e edição de um “Disco do Povo”.

Assim, mais do que um registo de fado, a colecção “Discos do Povo” é um testemunho de um projecto único de programação cultural e uma “carta de apresentação” para estes jovens talentos, potenciando a médio prazo um importante acervo de um renovado repertório fadista.

[ENG]

Inspired by a reinterpretation of the modern concept of Portuguese tasca, Povo is also a dynamic center of cultural production. The goal of Povo Artist Residencies is to discover and support young talented fado singers and to further develop a creative work that can enrich and enhance their professional development and careers.

Foreseeing eight annual editions, each residency has a six week length. During this period, a young emerging fado singer is invited to develop an exploratory work, that promotes contemporary fado songwriters, encouraging at the same time a creative dialogue with different instruments and musical influences. After the residency period, the artists continue their work at a recording studio, leading to an album release to be integrated on the compilation “Discos do Povo”.

Besides being a testimony of a unique cultural project and a “presentation letter” for these young talents, this compilation is a foretaste of an important contemporary fado repertoire collection.

Artista em Residência / Artistic Residency
Fado e o Silêncio / Fado and the Silence
Fadistas Convidados / Guests

Ana Rita Arez é uma jovem fadista aveirense, estudante de psicologia da Universidade de Aveiro, com 24 anos de idade. Foi premiada no 2o e no 4o concurso de Fado Amália Rodrigues na cidade do Fundão. Tem cantado um pouco por todos o país e também junto das comunidades portuguesas, em Paris e Zurique, por exemplo.Tem também estado ligada a eventos de cariz social, área a que é particularmente sensível.

Foi aluna da Prof. Olga Dadonova (professora Russa na Escola de Musica da Sociedade Musical de Santa Cecília), grande responsável pelo seu amor ao Fado. Com ela apresentou-se em diversos eventos culturais da comunidade(oriental) de línguas eslavas cantando em português e em russo . Foi com ela que também aprendeu a cantar músicas da cultura russa que ainda hoje adora cantar.

A sua residência no Povo é sobretudo uma oportunidade de aprendizagem e experiência a que se dedica com alma e coração.

[ENG]

Ana Rita Arez is a 24-years old fado singer from Aveiro who studied psychology in the University of Aveiro. She won the 2nd and 4th Amália Rodrigues Fado contest in Fundão. She’s been singing in many parts of the country and also in Paris and Zurich. 

She now begins an artistic residency in Povo, bearing in mind that it is important to embrace this project and all the space and strength that it gives to the most diverse musical synergies, letting the singularity and spontaneity of each fado singer blossom.

The chance to merge this new path with the recording of an album is an excellent challenge, since it will be like a beautiful drawing with permanent ink in her career, that will portrait the blending of different experiences that are lived in this residency.

É preciso que seja dito, sem medo e logo no inicio: o fado é um mistério, uma espécie de ritual onde pouco a pouco os iniciados abandonam os sentidos. A sua origem histórica ainda permanece em aberto: de onde veio, quem o trouxe, como nasceu.

Provavelmente a resposta nunca será descoberta e a pergunta continuará a suscitar discussões e paixões mais ou menos académicas. Mas a verdade é que a história do fado – desse mistério – acontece sempre que ele é cantado. E muitas vezes – tantas vezes – é a nossa história.

Como magia inexplicável que é – alguém sabe definir o que é «alma», alguém já a conseguiu estudar? – é natural que o fado viva de paradoxos e contradições, sobretudo por ser demasiado humano. Como a origem do silêncio obrigatório quando se canta o fado: aqui o silêncio vem das palavras.

O fado vive do peso das palavras, das cargas poéticas que os fadistas equilibram e partilham sobre melodias relativamente simples, na sua maior parte. A respiração, a pausa, o ênfase que cada cantador ou cantadeira oferece a versos mil vezes cantados tem de coincidir com a alma, encaixar-se nela na perfeição. E para isso é importante o que não é dito, o que fica por dizer – o silêncio, enfim.

Este silêncio tem de ser recebido com silêncio para que a liturgia dos sentimentos aconteça. Também por outros factores, como o respeito por quem toca e canta. Mas sobretudo por quem ouve – para que cada suspensão, cada frase, cada volta nos entre pelo coração adentro e nos deixe tudo desarrumado.

Quando alguém diz «silêncio, que se vai cantar o fado!», não é uma ordem: é o mais belo dos convites.

Nuno Miguel Guedes, jornalista e letrista de fado.

[ENG]

It must be said. Now, from the beginning, without any fears: fado is a mystery, a kind of ritual where, little by little, beginners learn to leave their senses. Its historical origin still remains unsolved: where did it came from, who brought it, how was it born? Probably the answer will never be found, serving only to ignite passionate and more or less academic debates. But the truth is that the history of fado – of that mystery – happens every time fado is sung. And many times – so very often – fado’s history is our personal story.

Because of this unexplainable magic – does anyone know how to define «soul», did anybody been able to study it? – it’s only natural that fado should live of paradox and contradiction, mainly because it is only too human. Just like the origin of the mandatory silence whenever fado is sung: in this case, silence comes from words.
Fado lives and thrives on the weight of the word; it feeds on that poetical charge that fadistas (fado singers) balance and share over melodies often very simple. Breath, pause, the emphasis that every fadista offers to verses sung one thousand times before has to match perfectly with the soul. And for that to happen it is very important what is left to be said: the unspoken word that only can be felt. In short, silence.

This silence must always be welcomed with silence, so that this liturgy of feeling can happen in its full splendor. Of course, there is also the respect for the musicians and the singer. But this respect is mostly for those who are hearing, so they can experience every pause, every phrase, every estilar (particular and individual style of singing that is the trade mark of the fadista)and let it break into their hearts and leave a mess.

When somebody says «Silence, please. Fado is about to be sung.» (“Silêncio que se vai cantar o fado!”) don’t take it as an order. It is, in fact, the most beautiful of all invitations.

Nuno Miguel Guedes, journalist, fado lyricist.

Aos finais de semana o programa de residências artísticas faz uma pequena pausa. Nestes dias recebemos no Povo alguns dos melhores fadistas que por aqui já passaram.

[ENG]

At the weekends the program of artistic residencies takes a short break. In these days some of he best fado singers who have benefited from it return to Povo.